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HOJE FOI A PRIMEIRA VEZ QUE FUI ÀS LÁGRIMAS NO TRIBUNAL

25 de Novembro de 2009 às 22:24 Ruy Gessinger  | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 348

Um rapaz de 21 anos, morador da Grande P. Alegre, estudante de Biomedicina, foi acusado de matar um colega, um amigo.

A Juíza decretou sua prisão cautelar e o moço foi parar no Presídio Central de P. Alegre. Um excelente advogado foi contratado para o defender. O processo foi seguindo e o advogado ingressou com um Habeas Corpus no Tribunal de Justiça, alegando falta de justa causa para a prisão processual.

A Câmara negou a ordem e o rapaz continuou preso.

Nesse meio tempo, o advogado do jovem, meu amigo, contratou nosso escritório para o auxiliar.

Como já tinham se passado 230 dias, sem que todas as testemunhas da acusação tivessem sido ouvidas, entramos com um novo HC, alegando, em síntese, excesso de prazo eis que o acusado nenhum perigo oferecia e era de excelenetes antecedentes. Rememoro que é de nosso sistema e das nações civilizadas que a pena só é cumprida após o trânsito em julgado da sentença. Ora, não tínhamos nem sentença, nem perigo, nem razão para uma prisão cautelar, preventiva, ainda mais numa masmorra como o Presídio Central.

Hoje foi o julgamento do Habeas. Sala de Sessões repleta, inúmeros advogados esperando seus processos irem a julgamento, estudantes de Direito.

O pai do menino, dono de uma oficina mecânica, era o retrato da dor. O guri perdera o semestre na faculdade e estava há quase 8 meses no Presídio.
O voto do relator foi pela denegação da soltura. Mas o voto seguinte acolhia a alegação de excesso de prazo. E o Presidente desempatou, concedendo a ordem.

Até aí nada era novidade para mim. Há 35 anos convivo com isso. Com vitórias e com insucesssos.
É que, antes do julgamento, tinha pedido ao pai do acusado que sentasse bem na frente e prestasse atenção ao que diziam os desembargadores, para que saísse daí sabendo porque o filho permaneceria preso ou porque se livraria solto.

Pois quando ia tirando a toga, ví o pai com a cabeça sobre os joelhos, chorando convulsivamente. Não, ele não chorou antes do julgamento, nem durante. Chorou quando a vitória estava assegurada.

O Tribunal estava mudo. Amparei o pai, de uns 50 anos e o fui conduzindo para fora e ele abraçado em mim, cego de tanto chorar. Saímos da sala do Tribunal e, no corredor, fi-lo sentar e uma pressurosa ex aluna, serventuária do Tribunal acorreu trazendo um copo d’água.

E o pai soluçava:
- doutor, me jura que isso não é engano, que concederam a liberade ao meu filho!
Piegas? Novela das oito?
Não, queridos amigos!
O pai, quando se acalmava, só dizia, ” oito meses no meio de ratos e baratas”.
Não sei se o rapaz é culpado ou inocente. Por enquanto é inocente.
Mas quem sofreu oito meses de suplício, mais que ele, foi seu pai.
Ser pai, ser pai!
Graças a Deus agora também os pais - e não só as mães - choram e gemem pelos seus filhos.
Que diacho, também sou gente ! Quando aquele pai me agarrou de novo e me beijou, que diacho, ” flochei”.

Todas as profissões são lindas, todas. A de advogado é assim: quando você se faz veterano, aí é que chora como um principiante.

————

Comentário de Loeffler

Pois é meu caro Ruy, se a memória não me trai vez que já se vão mais de 16 anos fora das lides, o prazo determinado no texto legal seria de 83 dias. Isto é que a cidadania ainda que leiga não consegue compreender e muito menos aceitar. Chorar não é uma fraqueza, pois quando um dos meus filhos partiu ao Oriente Eterno chorei e estou chorando depois de ler esta narrativa, pois pai é pai e essa história de que o homem não chora é tertúlia flácida para dormitar bovinos. E dizer que o Papagaio que já foi posto em regime semiaberto e deitou o cabelo e não só uma vez. Falando nele faz poucos dias que pleiteou cumprir o restante de sua pena no Ceará. No meu blog ao comentar a matéria veiculada num determinado jornaleco de nossa Capital, indignado o qualifiquei de f.d.p. Em menos de 24 horas surgiu um comentário de uma senhora dizendo-se inconformada com minha opinião, assim como o havia qualificado. A mesma não se identificou como sua defensora, mas pesquisando o nome dela no Google soube tratar-se de sua defensora. Respondi a ela de forma educada como manda o figurino, pois as mulheres merecem de nós todo o respeito possível já que uma delas nos trouxe ao mundo. Os cães ladram e a caravana segue seu curso.

COMENTÁRIO DO MESTRE ROGOWSKI

Ruy, não é fácil, nunca é! Por mais “quilômetros rodados” que tenhamos nas lides forenses, por mais que tentemos nos proteger emocionalmente enquanto profissionais, a emoção pega. Daí a meu ver a simbologia das vestes talares, a “capa preta” com o povo costuma dizer, para criar um estado de proteção psíquica. Mas a “capa” não consegue ocultar o coração no peito do homem. Como bem disse o mano Loeffler, chorar não é uma fraqueza. Tem que ter muita coragem e é preciso ser macho para chorar ante da dor alheia.

Fraternal Abraço.

Rogowski

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2 Comentários Faça seu próprio

  • 1. Nivia Andres  |  26 de Novembro de 2009 às 09:06

    Não perder a capacidade de emocionar-se é uma característica conservada pelas pessoas que amam a vida e aos seus semelhantes. Digamos que a empatia, nesses tempos áridos, é uma virtude rara, mas o senhor a exercitou, ontem, comungando as mesmas lágrimas do pai que também saiu da masmorra. No caminho das trevas para a luz ele teve a sua companhia. Da travessia é apenas a metade. Mas agora ele sabe que tem parceiro.

    Quanto à beleza das profissões, quase todas são lindas, sim. Exceto a de carrasco (algoz, verdugo…). E parece ser a que mais prospera…

    O principiante chora porque é inexperiente, já o veterano pode chorar porque tem bagagem…

  • 2. wild horse 2009  |  30 de Novembro de 2009 às 22:47

    Sem querer entrar no mérito dos choros, ao ler este artigo fiquei me perguntando se em algum momento passou pela cabeça dos chorões a dor dos pais do colega morto, afinal de contas ele não terá seu filho de volta nunca mais. Não serão alguns meses ou uns poucos anos: será para nunca mais. A inexorabilidade do tempo que não volta e daquilo que se perdeu para sempre é muito mais dolorido que o suplício de poucos dias. Se tivessemos o poder de tornar à vida àqueles injustamente mortos …

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