Arquivo de 25 de Novembro de 2009

HOJE FOI A PRIMEIRA VEZ QUE FUI ÀS LÁGRIMAS NO TRIBUNAL

Um rapaz de 21 anos, morador da Grande P. Alegre, estudante de Biomedicina, foi acusado de matar um colega, um amigo.

A Juíza decretou sua prisão cautelar e o moço foi parar no Presídio Central de P. Alegre. Um excelente advogado foi contratado para o defender. O processo foi seguindo e o advogado ingressou com um Habeas Corpus no Tribunal de Justiça, alegando falta de justa causa para a prisão processual.

A Câmara negou a ordem e o rapaz continuou preso.

Nesse meio tempo, o advogado do jovem, meu amigo, contratou nosso escritório para o auxiliar.

Como já tinham se passado 230 dias, sem que todas as testemunhas da acusação tivessem sido ouvidas, entramos com um novo HC, alegando, em síntese, excesso de prazo eis que o acusado nenhum perigo oferecia e era de excelenetes antecedentes. Rememoro que é de nosso sistema e das nações civilizadas que a pena só é cumprida após o trânsito em julgado da sentença. Ora, não tínhamos nem sentença, nem perigo, nem razão para uma prisão cautelar, preventiva, ainda mais numa masmorra como o Presídio Central.

Hoje foi o julgamento do Habeas. Sala de Sessões repleta, inúmeros advogados esperando seus processos irem a julgamento, estudantes de Direito.

O pai do menino, dono de uma oficina mecânica, era o retrato da dor. O guri perdera o semestre na faculdade e estava há quase 8 meses no Presídio.
O voto do relator foi pela denegação da soltura. Mas o voto seguinte acolhia a alegação de excesso de prazo. E o Presidente desempatou, concedendo a ordem.

Até aí nada era novidade para mim. Há 35 anos convivo com isso. Com vitórias e com insucesssos.
É que, antes do julgamento, tinha pedido ao pai do acusado que sentasse bem na frente e prestasse atenção ao que diziam os desembargadores, para que saísse daí sabendo porque o filho permaneceria preso ou porque se livraria solto.

Pois quando ia tirando a toga, ví o pai com a cabeça sobre os joelhos, chorando convulsivamente. Não, ele não chorou antes do julgamento, nem durante. Chorou quando a vitória estava assegurada.

O Tribunal estava mudo. Amparei o pai, de uns 50 anos e o fui conduzindo para fora e ele abraçado em mim, cego de tanto chorar. Saímos da sala do Tribunal e, no corredor, fi-lo sentar e uma pressurosa ex aluna, serventuária do Tribunal acorreu trazendo um copo d’água.

E o pai soluçava:
- doutor, me jura que isso não é engano, que concederam a liberade ao meu filho!
Piegas? Novela das oito?
Não, queridos amigos!
O pai, quando se acalmava, só dizia, ” oito meses no meio de ratos e baratas”.
Não sei se o rapaz é culpado ou inocente. Por enquanto é inocente.
Mas quem sofreu oito meses de suplício, mais que ele, foi seu pai.
Ser pai, ser pai!
Graças a Deus agora também os pais - e não só as mães - choram e gemem pelos seus filhos.
Que diacho, também sou gente ! Quando aquele pai me agarrou de novo e me beijou, que diacho, ” flochei”.

Todas as profissões são lindas, todas. A de advogado é assim: quando você se faz veterano, aí é que chora como um principiante.

————

Comentário de Loeffler

Pois é meu caro Ruy, se a memória não me trai vez que já se vão mais de 16 anos fora das lides, o prazo determinado no texto legal seria de 83 dias. Isto é que a cidadania ainda que leiga não consegue compreender e muito menos aceitar. Chorar não é uma fraqueza, pois quando um dos meus filhos partiu ao Oriente Eterno chorei e estou chorando depois de ler esta narrativa, pois pai é pai e essa história de que o homem não chora é tertúlia flácida para dormitar bovinos. E dizer que o Papagaio que já foi posto em regime semiaberto e deitou o cabelo e não só uma vez. Falando nele faz poucos dias que pleiteou cumprir o restante de sua pena no Ceará. No meu blog ao comentar a matéria veiculada num determinado jornaleco de nossa Capital, indignado o qualifiquei de f.d.p. Em menos de 24 horas surgiu um comentário de uma senhora dizendo-se inconformada com minha opinião, assim como o havia qualificado. A mesma não se identificou como sua defensora, mas pesquisando o nome dela no Google soube tratar-se de sua defensora. Respondi a ela de forma educada como manda o figurino, pois as mulheres merecem de nós todo o respeito possível já que uma delas nos trouxe ao mundo. Os cães ladram e a caravana segue seu curso.

COMENTÁRIO DO MESTRE ROGOWSKI

Ruy, não é fácil, nunca é! Por mais “quilômetros rodados” que tenhamos nas lides forenses, por mais que tentemos nos proteger emocionalmente enquanto profissionais, a emoção pega. Daí a meu ver a simbologia das vestes talares, a “capa preta” com o povo costuma dizer, para criar um estado de proteção psíquica. Mas a “capa” não consegue ocultar o coração no peito do homem. Como bem disse o mano Loeffler, chorar não é uma fraqueza. Tem que ter muita coragem e é preciso ser macho para chorar ante da dor alheia.

Fraternal Abraço.

Rogowski

2 comentários 25 de Novembro de 2009 às 22:24 Ruy Gessinger

UM ANO DE BLOG

YO SOY YO Y MIS CIRCUNSTANCIAS.

E assim somos todos nós: nós e tudo ” quod circum stat”, o que existe e é importante e que nos cerca.

E eu tenho várias circunstâncias: minha vida familiar, minha vida profissional na Capital, nossa empresa rural familiar, o avanço no escuro e incerto mundo da genética, o estranho , estranhíssimo mundo do interior, para onde quis ir de forma perene, mas não consegui.

É com essas perquirições que me ocupo no meu blog.

Procuro não me ater a assuntos que possam desinteressar ao leque grande de meus amigos, salvo quando tenha uma pitada generalizante.

Tenho postado quase todos os dias.

O que mais gosto de fazer é descrever a vida campeira e, de outro lado, ser didático nas questões jurídicas.

Mas, no fundo no fundo, não sou e nunca serei um morador de estância, nem de cidade do interior, nem de Gramado, nem de Xangri La.
Não posso ficar muito tempo longe do meu escritório no Edifício Tribuno, em P.Alegre, da TV Pampa, dos almoços intermináveis com meus confrades e amigos de décadas.
Estou, pois, docemente condenado a passar na estrada, fazendo 5.000 kms por mês, no mínimo.

Mas essas idas e vindas são minhas ” promenades”,minhas vilegiaturas. E nesse andejar vou mandando notícias.

Agora dia 15.12 me mudo, até início de março,para a frente do mar. E vou relatando.

Obrigado pela companhia e pela força.

2 comentários às 06:16 Ruy Gessinger


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