Arquivo de 10 de Novembro de 2009

QUEIMAR AS PONTES II

Loucura o número de mails que recebí, todos de mães e avós, me acusando - todas, todas - de que minha postagem tinha sido dirigida a cada uma especificamente.

Assim como: não devias ter te aproveitado de teres conhecimento de minha vida, para a escancarar assim no teu blog;
eu sei que é de mim que estavas falando; na verdade tu és carente e tens inveja do carinho que dou aos meus filhos;
eles não vão passar o que passei: eles vão ter tudo o que eu não tive;
tens que te tratar ou voltar ao útero de tua mãe.

Salientou-se um mail que recebo de leitora de Cachoeira do Sul, que usa o pseudônimo de Blaue Augen e que professa: te esqueces de que nós, mulheres , fomos feitas para isso: para cuidar de filhos e netos .

Outra, de Lavras do Sul me disse que o filho dela foi injustiçado pelo juiz, só porque matou em legítima defesa famélica e ela se ofereceu para cumprir a pena no lugar do pobrezinho. Lamenta que o juiz não aceitou.

A última, de Santa Maria, me disse que o filho incorporou ao Exército e que vai entrar na Justiça Federal com um pedido liminar para que possa acompanhar o indefeso rebento nas manobras e marchas, preparando comida para ele e vendo se está bem coberto à noite. Disse que o coronel comandante se mostrou insensível.

Bem, considerando que minha mãe me tomava todos os pilas que eu ganhava quando morava com ela e o pai ( no tempo em que dos 14 aos 16 anos trabalhei em Assmann SA), cheguei a cogitar de contratar um advogado para processar dona Ludmila, só para ela ir na frente do Promotor e ser obrigada a pagar cestas básicas para se livrar da masmorra. Como me lembrei, num intervalo de lucidez, que tudo está prescrito e mais: que ela poderia entrar com uma reconvenção contra mim e talvez me tomasse uma grana preta, querendo lucros sobre tudo o que ganhei graças à educação que ela me deu, recuei.

“Deixêmo”, como se diz em Unistalda.

Mas , todas as que me mandaram os mails furiosas admitiram que eu não era de todo mau e que no meu peito batia um coração. Querem que eu relate como foi o final, como foi depois que eu fiquei chorando lá em Três de Maio.

Pois é: cheguei no Hotel em Três de Maio e lá estava hospedada uma turma de mineiros e mineirinhas, lá de Juiz de Fora, do tal Projeto Rondon. (Pô Tusi, se não sabes o que Projeto Rondon, vai no Google). As gurias eram bem evoluídas para seu tempo. Uma viu que eu estava triste. Correu até um mercadinho e voltou com uma garrafa de Drink Dreher e me arrastou para o quarto dela, expulsando as outras três colegas .

Depois não me lembro mais de nada.

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QUEIMAR AS PONTES

Gente de todas as idades lê meu blog. Tem gurizada como o Luis Tusi, o Lemes, o Jerônimo Görgen, o dep Lara, a Juliana Leal, o Nemitz e tantos outros.

A maioria dos jovens de hoje , não os acima citados,nunca queimou pontes e talvez nunca o faça.

Começa por não nascerem ” em domicílio” como eu. A maioria nasceu no hospital, a maioria de cesariana, muitos não mamaram no peito. Já é uma desvantagem.
A maioria foi, no primeiro dia de aula, acompanhado da mamã, que até, se brincar, terá ficado na aula até pararem de chorar.
Quase todos mandaram a mãe ou a vovó para a fila quando aquilo que lhes interessava demandava de espera, como a matrícula.
É provável que os pais os levaram de carro até o local do vestibular e ficaram conferindo os gabaritos . Novamente as mães devem ter ido junto fazer a matrícula ( e é claro colocado aquelas faixas ” Valeu.. fulano” ( que criatividade, hein?).

Pais e mães devem ter ajudado ou procurado a achar uma CCzinha básica.
E, finalmente, como hoje em quase todo o mundo, ainda vivem com os pais, mesmo tendo 40 anos.

Havia um tempo em que você tinha de queimar as pontes. Não tinha mais volta.
No interior não havia faculdades, mesmo em cidades prósperas como S. Cruz.
A solução era, aos 17 anos ou antes, arrumar os trapinhos dentro de uma mala e sair para P. Alegre, arrumar um emprego de meio turno, morar numa pensão com mais seis caras nos beliches e um banheiro só em toda a casa, geralmente abrigando 40 barbados. E uma geladeira só, onde seu pão com mordadela dormia e não amanhecia ( legítima defesa da fome). Você tinha que lavar pesssoalmente suas cuecas e camisas e ir alternando suas duas únicas calças e seus dois únicos sapatos Vulcabrás. Tinha que comer no RU ( Restaurante Universitário) meio que desprezando algum bichinho que aparecesse no feijão. Ir para casa visitar os pais? era fácil. Era só ir na rua Hoffmann ali na Voluntários e pegar carona em um caminhão. Transporte escolar? nada disso. Era a pezito no más.

Chopp? fácil, a gente se metia no Alaska, que era ali na Sarmento, perto da Arquitetura e ficava cuidando quando algum cara fosse ao banheiro, numa mesa restavam copos pela metade. Era disfarçar e tomar o resto.
Tá, mas já é muito devaneio e relembrança.

Na formatura muitos pais não vinham porque tinham que cuidar da lavoura de fumo ou de seus bolichos de colônia. Não tinha nada de especial, salvo o detalhe de você ter o diploma de uma faculdade RENOMADA e realmente ter construído uma sólida cultura, que lhe abriria todas as portas.

Concurso. Aprovação. Tomar posse.
Podia escolher? Sim, mas não tinha filé.
Minha primeira comarca foi Horizontina, isso nos anos 70.
Viagem de carro. Atulhado de livros e malas. Era tudo o que eu tinha.

O asfalto terminava em Carazinho. Dali em diante era só barro vermelho. Apesar de ter saído cedo de P. Alegre, tive de pernoitar num hotelzinho na frente da Rodoviária de Ijui, ouvindo roncos de ônibus o tempo inteiro.
Cheguei meio dia de um domingo em Horizontina, em janeiro. Parecia que uma bomba de neutrons tinha caído ali. Ninguém nas ruas ( nas poucas que havia). Cheguei num Posto de Gasolina. Um cara , sentado numa cadeira de palha, palitava os dentes.
- senhor: qual o mehor hotel daqui?
O cidadão deu uma risadinha:
- só tem um e está fechado, os donos estão de férias numa prainha do rio Uruguai.
No outro dia eu tinha que assumir. Ninguém me esperava, o telefone era a manivela.
E agora?
E agora eu tinha que dar um jeito, tinha queimado as pontes que ficaram para trás.
Continuo outro dia.
( mas que naquele dia chorei, bem pouquinho, mas chorei, porque tive que voltar para Três de Maio, 30 kms de barro e pernoitar lá…)

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