Arquivo de 7 de Novembro de 2009

BALAIO DE CAUSOS

Acabo de ler, de uma sentada só, o livro do meu pranteado amigão Odilon Rebés Abreu.
Digo a vocês que é imperdível. Vários causos, tirados da vida real, bem retratando o linguajar e os costumes de nossa rica região de Campanha - Santiago, São Borja, Itacurubi, Cândida Vargas.

Lá vai uma amostra. Teria acontecido em Santiago.

O CEGUINHO

Mário Rocha Lopes, depois de exercer a odontologia, se cansou de ter o céu da boca como horizonte. Formou-se em Direito e fez carreira na magistratura gaúcha. Era um homem de coragem e sem papas na língua. Não tinha a contenção habitual dos magistrados. Encerrou sua carreira como desembargador do nosso Tribunal de Justiça.
Certa feita o dr. Mário instruía o processo de um suposto estupro. A sedizente vítima era uma mocetona de origem alemã, saudável e forte.
No seu depooimento começou a narrar o fato. O dr. Mário indagou como a coisa ocorrera.
- Doutor, ele me agarrou e me apertou de pé contra uma parede. Abriu meus braços e segurou firme contra a parede e aí me forçou…
Mário, com humor, não conteve a pergunta pertinente:
- mas, nessa situação, quem foi que guiou o ceguinho?

Adicionar comentário 7 de Novembro de 2009 às 16:13 Ruy Gessinger

RITMOS DE VIDA ( escrito em unistaldês)

Cheguei na Campanha lá pelas 4 da tarde. Um bafo ” co’de loco”. Pressentindo a chuva, já tinha telefonado ao capataz para encilhar o “Poeta”, que só chegaria, calçaria as botas e sairia para ver a terneirada.
A pastagem de azevém ainda está boa e as fêmeas angus e brangus da cabanha dando de mamar para cada terneiro ” capa de revista”. No ano que vem vamos ser páreo entre as grandes cabanhas, se Deus quiser.

Mas lá pelas tantas veio um puta aguaceiro que me molhou até o ” célebro”. Voltamos para as casas, tomei um banho me me fui ao galpão chimarrear e saber do meu peãozinho novo como é que estava a doencinha que andou pegando quando de uma visita lá nas tias. Diz que na hora do ” frevo” a tal capinha arrebentou e deu no que deu. Bueno, mas está tomando os remédios e que isso sirva de alerta.

À noite os demônios se soltaram das cordas e fizeram de tudo, trovões, raios, coriscos, ribombos e 75 mm de chuva.
Ainda chove.
Instintivamente me deu vontade de ler o jornal. Mas aqui não tem. Aquele bicho urbano, inquieto, que não pode parar um minuto sem fazer algo, começou a me comichar.

É quando me dou conta das diferenças dos ritmos entre o campo e a cidade. No campo não dá para ter pressa. Se tu tocares uma tropa com pressa, vai ter bicho caborteando. Se for meter as vacas para o tronco com pressa, elas vão refugar. Se for dosar com pressa, a metade do dectomax vai fora.

Na cidade, a essas horas, chovendo como está,por certo as crianças estão enchendo o saco dos pais para irem ao shopping ou estão presas ao computador.

Nós estamos aqui no galpão engraxando os tratores, lidando com alguma corda, corrigindo alguma conta, conferindo lotações nas diversas invernadas.
Enquanto isso, a chuva bimbalha no zinco e a cuscada nos espia indagando se hoje não vai ter campereada.

Hoje é eu que vou cozinhar para esses tontos. Já cortei em cubos um pedaço de carne do quarto de um cordeiro, temperei com tudo o que é erva e deixei quieto. Vou dar uma refogada com cebola e devagarito metendo uma água. Depois vou adicionar batata e aipim e fazer uma espécie de “putchero”. Tchê, essa comida , com uma pimentinha, levanta até defunto.

Adicionar comentário às 08:52 Ruy Gessinger


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