FINADOS - VELÓRIOS
Na minha infância, nada mais espetaculoso do que exéquias. A começar, na majestosa Catedral de minha terra natal, aquele cheiro de incenso, com turíbulo e tudo, as luzes roxas e azúis filtradas pelos vitrais, o sacerdote ou o Bispo D. Alberto com paramentos negros e o Coral entoando ” Dies irae , dies illae” ( pronuncia-se ire, ille). E o famoso morto ali no meio desse cerimonial que culminava, no cemitério ,com aquele barulho da terra caindo sobre o caixão.
Já ví pais enterrando filhos, já ví mortes de famílias inteiras, pai, mãe e filhos nesses recorrentes acidentes de trânsito. Até hoje me lembro dos dias e das fotos quando mataram Guevara e quando morreu Allende. Já perdi cedo meu pai.Antes perdera meus avós num desastre.
Perdi um amigo que, ao descobrir seu câncer, começou a me enviar cartas me contando como ia indo seu fim.
Outro, também com câncer, aguardava a morte em sua própria casa. Estava magérrimo, olhos cavados, se cansava para falar, arfava. E me dizia que só não se matava porque tinha medo.
E não me sai do pensamento aquela mulher de S. Leopoldo que perdeu seu gurizinho e que, todas as manhãs, ia ao cemitério colocar autinhos e brinquedos sobre o túmulo.
E, para finalizar, o velório mais esdrúxulo. Numa cidade do interior um rapaz ainda jovem faleceu em P. Alegre. Trouxeram-no para ser velado em casa. Familiares e amigos em redor do caixão, quietos, assistindo a novela da Globo numa TV quase na cabeceira do caixão.
Lembram-se daqueles plim plim que a Globo tocava para anunciar o intervalo?
Pois tocou o plim plim , iniciaram os comerciais e se iniciaram as lamentações e os choros.
Plim plim, tocou de novo, reiniciou o capítulo e se refez o silêncio.