Arquivo de 9 de Outubro de 2009

O CUSCO QUE ENTENDEU TUDO ERRADO

São sete quilômetros de estrada de chão entre a minha estância e o asfalto.

Certo dia estava eu voltando para a cidade, quando ví um cachorrinho novo, coleira, preto e branco, sentadinho, bem faceiro, língua pra fora, ao lado de uma bolsa vazia de ração. Logo pensei: largaram esse cusco aí.
E segui. Joguei meu tênis na cidade, comi churrasco e voltei pelas 11 da noite. Lua cheia, tudo muito claro.
Cruzo pela estrada de chão e vislumbro o cachorro, ao lado da bolsa, na mesma posição.
Me intriguei com aquilo. Como é que ninguém recolheu esse cachorro bonito.

Dois dias depois, sim, dois dias depois, cruzei e lá estava o cachorro, de língua de fora, abanando o rabinho, ao lado da bolsa. Perto dali tem uma sede de fazenda, bem pequena. Parei o carro e o caseiro me disse que o tal cusco era louco de brabo, que não deixava ninguém chegar perto. Acuava e rosnava.
Me deu um relâmpago na cabeça.
A la putcha! Esse cusco, não conhecendo os homens, achou que o cara que o abandonou na beira do corredor na verdade o tinha colocado ali para zelar, para guardar a bolsa vazia ( o saco vazio). Só podia ser isso.

Retornei ao local e fui conversando com o coleira, acalmando ele, meio de lejos. Peguei uma orelha de linguiça do Schuster, ali de Vila Pinheiral, em Santa Cruz e ofereci para ele. Ele me olhou louco de vontade de se entregar, o rabinho abanando mais que ventilador de teto… mas resistia, tinha medo de ser desertor, pois seu dono ao certo lhe dera a tarefa de zelar pela bolsa, dentro da qual fora carregado até ali.

Bem no fim, como se diz em Unistalda ele me deixou acariciá-lo e concordou em ser - ele e o saco vazio - transportados para a caçamba da minha Ranger., Mas não se deixou amarrar.
E assim fui indo de volta para a fazenda com ele.

Está comigo até hoje. É flor de campeiro. Mas acho que se sente meio culpado por abandonar seu posto….

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JOSÉ PAULO BISOL

Visitando o blog de Júlio César Schmitt Garcia, dou com um vídeo de Bisol.

Quando ingressei na magistratura no início dos anos 70, eu era um deslumbradinho pela vida e pelas coisas. Tivera uma infância boa, adolescência excelente, Faculdade ótima, passara no concurso depois de dois anos advogando. Tal mundo não era wonderful?

Na sede campestre da Ajuris jogava-se um bom futebol. E logo conhecí colegas mais antigos inquietos. Inquietos e não tão deslumbrados assim. Gaiger, Koch, Fábio Koff, Rocha Lopes e, destacando-se bastante, a meus olhos, Bisol.

Cara normal, jogava bem, tomava cerveja como todos, mas criticava a atuação do nosso Tribunal e via com olhos extremamente críticos a própria ação de julgar.

Nesses papos pós jogos ele e seus ” jagunços” ( o grupo político de juízes que acabou independizando a Ajuris frente ao Tribunal) foram me inquietando e me fizeram começar a pensar criticamente e lá me fui aos jurisfilósofos de cuja existência até então não soubera.

Bisol e seu grupo foram amealhando, silenciosamente, seguidores e talharam, decisivamente, as gerações seguintes de juízes.
Acompanhei-o por boa parte da vida.
Depois ele trilhou outros caminhos, na TV, no rádio, na Política.
Sempre levando sua lanterna crítica.

É isso o que considero o mais importante. Bisol sempre levantou dúvidas, sempre suscitou a discussão. Sem ele a magistratura gaúcha talvez tivesse demorado bem mais a ser o que é dentro do país. Talvez tivesse sido bem mais dócil e atrelada, como ainda parece ser em alguns lugares fora daqui.
Bisol foi decisivo na minha vida .

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