O CUSCO QUE ENTENDEU TUDO ERRADO
São sete quilômetros de estrada de chão entre a minha estância e o asfalto.
Certo dia estava eu voltando para a cidade, quando ví um cachorrinho novo, coleira, preto e branco, sentadinho, bem faceiro, língua pra fora, ao lado de uma bolsa vazia de ração. Logo pensei: largaram esse cusco aí.
E segui. Joguei meu tênis na cidade, comi churrasco e voltei pelas 11 da noite. Lua cheia, tudo muito claro.
Cruzo pela estrada de chão e vislumbro o cachorro, ao lado da bolsa, na mesma posição.
Me intriguei com aquilo. Como é que ninguém recolheu esse cachorro bonito.
Dois dias depois, sim, dois dias depois, cruzei e lá estava o cachorro, de língua de fora, abanando o rabinho, ao lado da bolsa. Perto dali tem uma sede de fazenda, bem pequena. Parei o carro e o caseiro me disse que o tal cusco era louco de brabo, que não deixava ninguém chegar perto. Acuava e rosnava.
Me deu um relâmpago na cabeça.
A la putcha! Esse cusco, não conhecendo os homens, achou que o cara que o abandonou na beira do corredor na verdade o tinha colocado ali para zelar, para guardar a bolsa vazia ( o saco vazio). Só podia ser isso.
Retornei ao local e fui conversando com o coleira, acalmando ele, meio de lejos. Peguei uma orelha de linguiça do Schuster, ali de Vila Pinheiral, em Santa Cruz e ofereci para ele. Ele me olhou louco de vontade de se entregar, o rabinho abanando mais que ventilador de teto… mas resistia, tinha medo de ser desertor, pois seu dono ao certo lhe dera a tarefa de zelar pela bolsa, dentro da qual fora carregado até ali.
Bem no fim, como se diz em Unistalda ele me deixou acariciá-lo e concordou em ser - ele e o saco vazio - transportados para a caçamba da minha Ranger., Mas não se deixou amarrar.
E assim fui indo de volta para a fazenda com ele.
Está comigo até hoje. É flor de campeiro. Mas acho que se sente meio culpado por abandonar seu posto….