Descalço as botas de solado de pneu, as bombachas uruguaias, tomo um banho demorado para desimpregnar o cheiro de lã de ovelha, faço a barba e já me concentro na longa viagem semanal de 550 kms, passando por S. Maria, São Sepé, BR290, ponte do Guaíba e meu escritório no 8. andar do edifício Tribuno.
De terno e gravata cruzo a portaria e os porteiros me saúdam estereotipados:
- e daí, como vão os boizinhos? ( pombas, eu não termino bois, mas como explicar para eles)
- e aí, muito fandango no galpão? ( arre égua, galpão é lugar de guardar trator, arreios, sementes, adubos…)
No meu gabinete afasto as pilhas de pastas, olho pelo janelão e vislumbro aquele maravilhoso delta do Guaíba.
Vivo assediado pelo receio e pela ambivalência. Não consigo me pensar fora do escritório, não posso parar, nunca vou poder parar, pois a atividade pecuária é muito instável ( a planta é pior ainda) e tudo o que não quero é a velhice me encontrar pelado e cheio de dívidas.
Ao fim e ao cabo é difícil o gado competir com o frango e o suíno. E o RGS , com suas secas, geadas, frios, calores senegalescos, tem dificuldades em competir, na pecuária, com Mato Grosso do Sul , Goiás, etc.
Então, com calma e prudência, vou timoneando, controlando custos, e assim mantendo a cabeça para fora da água. Mas que a crise é medonha, isso é. Por sinal, essa pecuária extensiva, em campos duros, com áreas reduzidas , penso só ser possível se o produtor não tiver empregados, ou se os tiver, um ou dois no máximo. E quando a lida aperta, melhor é terceirizar.
Mas a advocacia mudou muito nos últimos dez anos. Tudo é longe, tudo demora, tudo se torna cada vez mais impessoal, não dá mais para se mexer dentro da Grande P. Alegre. Uma viagem de P.A. a São Leopoldo pode durar 35 minutos, como três horas. Nunca se sabe.
Mas acredito que o pior ainda é ficar parado, mendigando companhias, sem protagonismo algum, com as caspas se acumulando sobre os ombros.
E tem mais: uma coisa é um lugar lindo e prazeroso para passar alguns dias. Outra, muy diferente, é o dia a dia. Pergunte a quem foi morar em Floripa depois de aposentado. Sonhava com aquelas praias , os camarões… mas o dia a dia implica as misérias cotidianas. E assim é tudo: até aquela plácida cidade interiorana tem suas mazelas e seus horrores no porão.
No mais, fico obervando as eleições na Farsul, hoje. É inacreditável o que ocorre nessa área.
Mas, como se diz em Unistalda, ” deixêmo”.