OS SINOS DE MINHA TERRA NATAL
Como gosto defazer aos domingos, quando retorno a P. Alegre para trabalhar toda a semana, passei em Santa Cruz para visitar minha mãe, forte como um cerne de carvalho das montanhas germânicas nos seus 88 anos.
Sentados na cozinha de sua casa situada num latifúndio urbano a metros da Catedral, comida sendo feita no fogão a lenha, começaram as relembranças, sempre a gente falando em alemão.
Quando foi meio dia, tocou um dos quatro sinos de nossa Catedral Gótica.
- Mutter - perguntei - aqui em Santa Cruz os sinos ainda tocam de um jeito quando é um homem que morre, doutro, quando é mulher e doutro ainda quando é criança?
( Transportei-me para os anos 50 e 60. A gente sabia, quando tocavam os sinos, se era homem, mulher, ou criança que tinha morrido).
Não, disse-me ela. Desde que os homens que sabiam tocar os sinos foram morrendo, esse costume desapareceu. O último que sabia tocar os sinos era o sr. Konzen, que já faleceu.
- Mutter, e os sinos eram mesmo afinados em do, mi, sol e si?
- Isso é teu Vater que sabia…
Me lembro quando havia missas solenes. Os quatro sinos tocavam ao mesmo tempo, num concerto divino que se ouvia nas colônias em volta.
Da casa de minha mãe fito a Catedral com suas enormes torres.
Lá estão os sinos, fundidos e afinados na Alemanha.
Estarão mesmo afinados em intervalos de terça? Acho que não. Eram tristes demais as badaladas quando morria uma criança. Do, mi e sol naturais não são tristes.
Pena que o sr. Konzen faleceu. Com ele morreu um pouco mais a Santa Cruz de minha infância.