TRABALHADORES RURAIS
Dou a palavra ao renomado Blau Souza. ( Publicado em O Sul Rural)
Pediram-me um texto para reunião em que seriam homenageados os trabalhadores rurais,os assalariados do campo.Para início de conversa, à moda de Cyro Martins, lhes prometi mais ou menos dois palmos de escrita. Boa parte disso, aqui alinhavo com as vivências do dia-a-dia. Aspectos da Historia e a vizinhança com o mundo de língua espanhola, no convívio pacífico ou nas guerras, forjaram um tipo humano muito especial para tomar conta do pampa. Depois de quase exterminar o gado espalhado pelos jesuítas na luta pela sobrevivência, a adaptação à terra e o pastoreio plasmaram a figura do gaúcho que se tem conservado e evoluído através dos tempos. Reflexões
filosóficas, antropológicas, de alcance social, ficaram e ficam para os estudiosos que o analisam independentemente de propriedade de terras. Se tivesse, hoje, que buscar um gaúcho autêntico, da mesma forma que no passado, eu o procuraria num galpão de estância, no peão, no trabalhador rural. Em nossa História, mais do que os patrões, ele forneceu suor e sangue para a afirmação do Continente de São Pedro. Foi miliciano mal armado na defesa das estâncias, do território luso ou brasileiro e foi insubstituível na atividade produtora.
Cuidar de rebanhos e de culturas, tropear durante meses, varar rios, enfrentar chuvas, ventos e geadas, tudo ele fez com o desprendimento dos vocacionados, dos que aceitam desafios, dos que sabem valorizar a vida a cada vitória sobre o meio hostil e a violência. O progresso misturou-se com ele e cobrou seu preço. Exigiu mudanças. As vastidões indivisas desapareceram. As grandes tropeadas passaram a ser temas para saudosistas, enquanto bois viajam de caminhão por vias asfaltadas.
As juntas de boi, as pipas para buscar água em cacimba, os candeeiros iluminando noites de assombração, tudo foi sendo substituído numa escalada de progresso e de melhoria de vida para o homem rural. Além da atividade, outra característica que destaco no gaúcho é o seu potencial para adaptações. Passou a entender de mecânica, dirige veículos, insemina e mexe em computadores. Especializou-se em muitas coisas, sem deixar de amanunciar, domar e bem cuidar dos cavalos.
Continua a usá-los na lida e, sobretudo, nas folgas nos dias de festa. Mas, cavalgando o progresso, passou a usar carro ou moto para deslocamentos maiores em menor tempo. Moderniza-se sem perder o rumo e conhece sua própria força na geração de riquezas. Grande parte dos proprietários rurais de hoje foram empregados, ou são filhos ou netos de trabalhadores do campo. Seu número supera de
longe o dos poucos proprietários que utilizam terras mantidas através de gerações desde as sesmarias dos tempos da conquista do território. Muitos dos empregados no campo são também pequenos proprietários. Não exigem terra própria como condição para nela trabalhar, produzir alimentos, e foram os últimos trabalhadores a se beneficiar das conquistas sociais. A previdência e a legislação trabalhista chegaram aos poucos no campo e bem depois de assistir às populações urbanas.Novos vínculos se estabeleceram entre patrões e empregados diante das muitas exigências criadas para bem produzir no mundo moderno.
A vocação para o campo, o bom relacionamento com os patrões e a identificação com os estabelecimentos em que trabalham inviabilizam seu aproveitamento como massa de manobra do MST. E não é por acaso que eles são as vítimas mais freqüentes durante as invasões de terra ou quando as fazendas são roubadas, no seu gado e nas suas sedes. A sua permanência no local de trabalho, sem as armas que protegiam os milicianos dos
tempos heróicos, faz deles candidatos naturais a um martírio fora de tempo e de propósito. Eles valem muito, mas se continuarem vivos, felizes, criando filhos e progredindo junto com as empresas, dentro da lei e em paz.
Adicionar comentário 22 de Abril de 2009 às 22:25 Ruy Gessinger