CUSCADA DE ESTÂNCIA
Estância que se preze sempre tem um monte de cuscos.
Um que foi de minha predileção chamava-se Débby, que era irmão do LLoyd, este de menos fundamento. Débby era um ovelheiro coleira, preto e branco, tão inteligente que só falava comigo usando os olhos e a cola. Pressentia-me a uma légua de distância. Quando via a caminhonete, fazia uma alegre escolta. Eu abria a porta e ele pulava em mim, com suas enormes e sujas patas. Gemia e gemia, narrando-me em detalhes os últimos acontecidos e só me deixava caminhar depois de 10 minutos de afagos.
Sempre montava guarda na soleira de minha casa, estivesse eu ou não.
Certa feita, num domingo, abri a porta e não o vi. Não dei importância; ao meio dia passei a procurá-lo e não o encontrei. Expedí peões para todos os cantos, em vão.
Uma tristeza medonha apossou-se de mim. Pensei: nunca mais hei de ter outro cachorro. É ruim, porque se ele morre, a gente se arrasa.
Já à tardinha apareceu seu Lisca, capataz de uma fazenda lindeira, onde não tem luz. Vinha prosear, carregar o celular e pedir para colocar uns fervidos no freezer..
Lá pelas tantas contei-lhe que meu cachorro Débby tinha sumido.
E ele, dando uma cuspida pro lado pelo meio da falha de um dente, me sorriu:
- Seu Juiz, ele tá lá em casa, desde que minha cadela se correu. Mais uns dias termina o namoro e ele volta. Fique tranquilo que tô dando bóia pra ele.
Já faz dois anos que Débby faleceu. Foi no dia em que cheguei e ele não acorreu, como de costume. Estava deitado sob um cinamomo, arfando, bem fraquinho. Ele me reconheceu, deu um pequeno e fraco uivo, tentou levantar e não conseguia. Fiquei ao lado dele , sempre o acariciando,das 10 da manhã até o meio dia, quando ele exalou seu último suspiro. Morreu feliz e está enterrado no jardim da frente da estância, seu espírito montando guarda.
Adicionar comentário 3 de Abril de 2009 às 09:09 Ruy Gessinger