Recebo do meu amigo dr. Rogowski.
O Tempo, o ser e a Técnica
Régis de Oliveira Montenegro Barbosa*
São por todos nós conhecidos os benefícios, comodidades e facilidades gerados pelo avanço tecnológico da sociedade pós-industrial. Forçoso, contudo, indagar e refletir por que veredas trilhamos e a que custo. Assistimos, não sem assombro e consternação, ao depauperamento e à degradação das virtudes da alma, o que se constata com maior candência no campo da ética. Sucede como na estória do sapo que, colocado na panela imerso em água cujo calor é paulatinamente elevado, nela permanece até fenecer, já que deixa de perceber o gradativo aumento da temperatura. Assim também nos está a acontecer, seduzidos pela sociedade da técnica, fustigados pela azáfama cotidiana, sem que nos demos conta ou tenhamos força e energia para “remar contra a maré”.
Cooptados pelos “encantos da máquina”, permanecemos embevecidos, “grudados” nos visores do celular, do computador, do televisor, quiçá nutridos da dissimulada ânsia de sermos percebidos, aos nossos olhos e aos dos outros, como pertencentes a uma sociedade tecnologicamente avançada. Visualizar-se socialmente inserido no contexto, este é o mote! O problema é que, sem maiores perquirições, sofregamente lançamos mão de uma profusão de inovações tecnológicas (como a criança que se encanta com o brinquedo), ao escopo de sentirmo-nos “in” e não “out”. Desta forma, perdemos em sensibilidade para o que se encontra no entorno, vale dizer, para o belo e excitante mistério que a vida por si encerra, mas que vem perdendo em encanto e magia. Transitamos menos por uma consciência individualizada (acessada somente quando entramos em estreito contato com o recôndito de nosso ser) do que por aquela que se esgota no restrito grupo cultural a que pertencemos. Vale dizer, no inconsciente (ou consciente) coletivo Junguiano.
Por isso que, rogando perdão pela tautologia, todo mundo só faz e pensa o que todo mundo faz e pensa! Portadores desta consciência obnubilada, tornamo-nos presas inermes do torpor e da inconsciência, para não dizer inconsistência! Cultiva-se apenas o que é saliente e visto, não o que está oculto, velado e não aparente, postura que colide de frente com o aforismo cunhado por Antoine Saint-Exupéry, que, no opúsculo O Pequeno Príncipe, alertara: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.
A menos que se pretenda fazer vistas grossas e ouvidos moucos, é de inferir que a tecnologia, com a rapidez e artificialismo ínsitos, sem embargo de muitas vezes benfazeja, acarreta efeitos colaterais e embute todo um modus vivendi. Vem emprestando aridez a um mundo no qual cada vez menos vicejam a poesia, a sensibilidade, o encantamento, a contemplação, a paz, o amor. Pelo contrário, tais estados anímicos, não raro, são maliciosa e distorcidamente estigmatizados e acoimados de parvoíce ou pusilanimidade. Até parece que por força de nossa condição humana nem estamos expostos a toda sorte de infortúnios, à doença, à velhice e à morte.
Ao revés, no ápice da pirâmide axiológica grassam a competição, o arrivismo, a ânsia por sucesso pessoal e material, o açodamento impensado e insensato. Não assumimos nem damos a conhecer nossas fragilidades naturais e, o que é mais constrangedor, por vezes deixamos transparecer até mesmo o que bem lá no fundo nem somos ou nem estamos efetivamente sentindo (a velha hipocrisia da qual o meio e convívio social estão prenhes!).
Isto sem mencionar o crescente solapamento da “cultura do livro”, sucedida a passos largos pela indústria cultural e do entretenimento (ADORNO & HORKHEIMER, Dialética do Esclarecimento, e GUY DEBORD, A Sociedade do Espetáculo). Integramos uma “massa” amorfa e esteriotipada, cujas posturas, sentimentos, e até pensamentos, passam a ser pré-concebidos e moldados pela cultura de massa (HERBERT MARCUSE, o Homem Unidimensional) e por uma mentalidade de rebanho (NIETZSCHE).
De modo a provocar inveja ao mais genuíno “Fordismo”, que nos alvores do século passado inaugurou o sistema de produção em série e de divisão do trabalho.
Somos frutos de uma sociedade midiática que, modo intermitente, forja ídolos (ícones) que em seu proscênio são adorados e bajulados, mas que só conquistam e ostentam fama, prestígio e riqueza, na razão direta da existência de idólatras de plantão que, com tal atitude, deixam de despender atenção e energia para dentro de si, com o que desconectam os fios condutores que franqueiam o acesso à força e sabedoria interiores, em boicote ao despertar espiritual, que em determinadas culturas e filosofias do oriente assumem singular valia, mas que por nós são negligenciados.
Não é por menos que a sociedade tecnológica contabilizou como um de seus acerbos críticos o filósofo alemão Martin Heidegger (Ser e Tempo), para quem ela elidiu do homem a imprescindível indagação pelo sentido do Ser e pelo significado mais profundo da existência humana. Tudo porque vivenciamos uma “Sociedade em Rede” (MANUEL CASTELLS), que nos exorta a que permaneçamos a ela “plugados”, com o que se instala um mundo virtual e artificial (quase fictício!) a latere do mundo concreto e natural, aquele guindado a um posto de maior relevância, até mesmo nas relações afetivas.
Tais considerações e invectivas, todavia, não denotam qualquer pretensão a que se retorne ao estado de natureza ou que se renda tributo ao mito Rosseauniano do “Bom Selvagem”!
Outro efeito nefando protagonizado pela sociedade tecnológica reside na sensação de aceleração do tempo. É que tudo funciona de forma cada vez mais célere, regado por um bombardeio de informações, merçê da revolução da informática. Há quem diga que se cuida de fenômeno objetivo, tese preconizada pela “Doutrina Schuman”, em conformidade com a qual as ondas eletromagnéticas que envolvem nosso planeta estariam vibrando com uma frequência e velocidade maiores.
A triste evidência é que a vida nos está “levando de roldão”, o que automaticamente nos impõe a pergunta acerca de qual o sentido disso tudo. Perdemos em calma, afeto e alma! Como sentenciara Sócrates do cume de sua sabedoria (já que segundo o Oráculo de Delfos sabia que nada sabia), uma vida não examinada não vale a pena ser vivida. Com efeito, tornamo-nos meras peças de reposição de uma engrenagem que se auto alimenta e se move autonomamente, que nutre um fim em si mesmo e que conta como um de seus precípuos combustíveis propulsores o Capital, velho inimigo de Karl Marx.
Isto tudo não sem o sério risco de virmos a desembocar no autofagismo. O que até nos deixa timoratos de que se cumpra vaticínio escatológica da civilização Maia, que rendeu ensejo a recente produção cinematográfica, no sentido de que ocorrerão catástrofes de proporções alentadas por conta da inversão dos eixos polares da Terra, já no iminente ano de 2012, aptas a provocarem o epílogo da existência humana neste planeta, ao menos nas condições que conhecidas e vivenciadas.
No crepúsculo e sintetizando: para que nos seja possível provar da polpa da fruta estamos tendo que engolir o caroço!
*Juiz de Direito, Graduando em Filosofia no IDC.