AS DEUSAS GERMÂNICAS HÃO DE AJUDAR A SALVAR A MULHER DO MEU CAPATAZ

1) Quando Messias e Luzângela souberam que ela estava grávida, luziram de tão contentes. Messias é campeiro e trabalhou anos comigo. Quando Mateus nasceu se constatou que tinha grave problema respiratório. Corre para Santa Maria!! LUzângela ficou no Hospital em Santiago. Messias se foi de bombachas, chancletas e uma camiseta na ambulância com o piazito. Lá disseram que não havia recurso pro piá. Falei então que ele corresse de ambulância particular mesmo para Santa Cruz, minha terra, onde há excelente neo-natal.

Lá já estavam as duas Deusas Germânicas esperando para, com suas preces, ajudarem os médicos a salvarem Mateus.
Explico que essas duas Deusas são minha mãe Ludmila e minha irmã Cleonice que herdaram de suas ancestrais o poder que aquelas bruxas das florestas tinham na Alemanha. Hoje lá na Alemanha não tem mais essas deusas porque lá aquilo virou uma filial dos EUA. Os verdadeiros alemães e as verdadeiraqs alemoas estão aqui no RS e SC.
Bueno. Depois de um mês o piá se salvou-se, como se diz em Unistalda, mas as duas bruxas de olhos azuis não queriam mais que Messias, Luzangela e Mateus voltassem. Queriam que ficassem morando lá. Tive que repatriá-los à força para Unistalda, onde estão sãos de lombo.

2) Há mais de ano dona Marilza, esposa do meu amigo e capataz Luiz César banhava-se quando notou aquele caroço num seio. Parece que demorou um pouco para falar com o marido e, finalmente, se constatou o que era. Corre para Santa Maria, onde retiraram o seio. E dê-lhe quimioterapia, a pobrezinha indo, no calor do verão fazer as aplicações. Ficou carequinha, só anda de chapeuzinho.
3) Mas os doutores mandaram fazer radioterapia. Só que em Santa Maria não estão fazendo.
Corre para Santa Cruz - Hospital Ana Néri.
Hoje levei a dupla para lá,Luiz César remanchando e não querendo ficar, o que seria da fazenda sem êle. Do alto de minha autoridade de teuto-brasileiro brabo dei-lhe a ordem de permanecer ao lado da mulher. Ficarão hospedados na casa de minha mãe e serão levados diariamente por minha irmã no Hospital.
Claro que serão os médicos que vão salvar Marilza, mas guiados pelas preces das duas bruxinhas de olhos azúis e das de vocês meus leitores. Não fazemos questão de crenças, estamos estabelecendo uma coligação espiritual ampla e irrestrita.
Meu único receio é que Luiz César tenha um surto e se mande pras campanha de volta… Amanhã eu conto.

Comentários (2)

MULHERES

Ao invés de banalidades, frivolidades e lugares comuns pegajosos, vou fazer algumas homenagens:

* Às mulheres que, há bem poucos anos, eram impedidas de votar;
* Às que não era admitidas no Banco do Brasil por serem do sexo feminino, só por isso;
* Às que, inobstante serem formadas em Direito, tinham sua inscrição negada ao concurso de Juiz de Direito pelo gravíssimo crime de serem mulheres;
* Às que, caladas e com medo de perderem seus empregos, ainda são assediadas sexualmente por chefes e patrões;
* Às que, ainda bem pouco tempo atrás, ao procurarem o prazer sexual, inclusive com seus próprios maridos, eram repreendidas com ofensas tipo: ” isso é coisa de vagabunda”.
* Enfim, minhas hosannas a todas as mulheres, principalmente às que são parceiras, amigas e amantes a um só tempo.

Comentários

QUEM NÃO VIAJA ESTÁ POR FORA

A primeira vez que viajei para a Alemanha,nos anos 80, cheguei todo lampeiro querendo entoar as ” lieds” ( canções) da minha meninice.
- Es ist von schlechter Geschmack - ( é de péssimo gosto) me diziam.
É que fazia mais de 100 anos que meus ancestrais tinham vindo ao Brasil, eu não acompanhara os acontecimentos , o mundo mudara em duas guerras ( perdidas pela Alemanha, heheheh), o que mudava tudo.

Certa vez fui fazer a besteira de voltar a uma comarca onde fora juiz. Tinham-me dito que não fizesse o desaforo de ficar sem ir lá . Quando fui, três meses depois, ninguém me deu bola. Rei morto, rei posto. É assim.

Portanto, as coisas mudam.

Fazia tempo, 45 dias, que não visitava meu filho Armando, engenheiro, que mora em São Leopoldo.
Noooosssaaaaa, como está linda a cidade. Tudo rescende a progresso, a dinheiro. Tem criminalidade, shalalalala, ok; mas as pessoas têm esperança.

Viera da região central. Nossaaaa. Que vontade de vender umas 200 vacas, fretar um ônibus, para que o pessoal da fronteira visse como estão mal nossas cidades daquelas paragens.
Não que eu queira o progresso e a poluição a qualquer preço. Jamais!!! Mas, pelo amor de Deus, um pouco mais de esperança de dias melhores para os jovens da Região de Santa Maria em direção a Santiago e São Borja.

Por que tanta diferença?
Estou convencido de que a maior parte das pessoas que habitam a região da Metade Sul não sabe do que se passa no resto do mundo: rádios rodando chasques, patacoadas, músicas; TV aberta passando frivolidades, e o povo achando que ” tá bão”; e o pior, se adulando, frente ao espelho, nas autolaudações doentias….
Só falta, agora, vir a criminalidade para as empobrecidas e submissas populações do centro-oeste. Aí sim, vai ser tragédia.
Pessoal! Vamos acordar? ops - vamos viajar um pouco mais? Tranquilidade é bom, mas a pobreza é bronca na certa….

Comentários

HÁ EXPLICAÇÃO PARA TANTA SUJEIRA, TANTO LIXO?

Meu amigo Flávio Del Mese publicou um artigo que só sua mente privilegiada poderia conceber ( www.delmese.blogspot.com).

Eis parte dele:
( ele conta que levou amigos para um city tour em POA)

“O único problema foi …o que dizer ao não parar para fotos no morro da TV? Iríamos perder o por do sol, etc… em algumas situações tive dificuldades em arranjar desculpas.
Até me surpreendi com minhas qualidades de guia.
Meu único erro, pelo menos que assumo, foi levá-los, mesmo que de automóvel para a beira do Guaíba.
O horário foi mais ou menos calculado. Ao chegar lá, porém, não os impressionou o cantado por do sol, mas o descuido da nossa orla.
Lixo em quantidade, mato crescendo, árvores tombadas (literalmente), moradores de rua com barracas, galhos caídos e plásticos em quantidade.
Carroceiros recolhendo lixo e revirando as lixeiras de uma casa atrás da outra e deixando o que não lhe interessa espalhado na calçada.
A impressão que ficou? Não sei. Gente educada…não contam exatamente o que vai na sua cabeça.
Mas a meu ver a impressão deve ter sido essa: o que é privado é cuidado, o que é estatal, municipal ou coletivo é bom nem comentar.
Nunca foi melhor ou pior.
O Brasil é assim. Achamos que ser limpos é tomar banho diário etc…
Dizemos até que o saudável hábito foi assimilado dos índios, nos trópicos, etc…Deve ser verdade, até alguns anos atrás, achar um banheiro confortável em hotéis médios na Europa, era uma tarefa para o Sherlock Holmes ou seu amigo Watson.
Da forma que agimos os prefeitos vão ter que colocar um gari ao lado de cada cidadão. Eles tem culpa pela grama não aparada e ervas de tamanho amazônico, agora, pela sujeira, temos que assumir, a culpa é nossa.
Restringir limpeza, a higiene pessoal é fechar os olhos”.

——-
Corta para mim, agora.
O que há com nosso povo que se perfuma, se maquia, frequenta academias, quer malhar, quer ser fashion, mas atira lixo na rua, nos rios, nas estradas. Canso de ver motoristas em automóveis até novos, atirando latinhas vazias pela janela. No Arroio Dilúvio até sofá tem boiando.

Que tipo de gente somos? Nos gabamos de tomar ” um bom banho” dez vezes por dia, mas nos comportamos como porcos de antigamente fora do banheiro.
Sinceramente, amigos, acho que ainda não vai ser no presente século que chegaremos ao Primeiro Mundo.
Com efeito: que futuro teremos se, na frente dos filhos, atiramos lixo na rua? Hein, hein?

Comentários (1)

UNISTALDA: A UTOPIA É POSSÍVEL

Permitam meus conspícuos leitores que continue a não tratar de coisas como a ” zwischenfeststellungsklage” do Direito Alemão, a questão da Teoria do Possível e Razoável ante o Ativismo Judicial e me debruce sobre essas coisas singelas da vida que tendem a desaparecer.

Pois ontem decidi, ao invés de infletir à direita,saindo o asfalto para ir a Fazenda, seguir mais 12 kms e dar uma chegada na Unistalda. Logo na entrada da cidadezinha deparei com dona Izabel, viúva daquele campeiro amigo meu, o Pedro Alexandre, que rodou de uma égua e acabou morrendo. Parei a caminhonete e ficamos charlando ali na calçada. Em seguida se formou uma roda de pessoas e ali ficamos, debaixo de um sinamomo e dê-lhe prosa.
Saí dali e fui até o Sicredi onde sempre é uma festa quando chego.
Cheguei na caixa com um cheque que havia recebido três meses atrás de um cliente que me comprara um touro e indaguei:
- será que tem fundos?
Disse-me a funcionária Tanara:
- dr. o sr. está em Unistalda, terra da inadimplência zero.
E não deu outra, claro que tinha fundos.
Pois vendi 24 touros em Unistalda, todos com prazos de 60 até 120 dias e nenhumzinho voltou.
Pergunto-me: como se explica esse fenômeno numa comunidade de menos de 3 mil habitantes, a maior parte constituída de pequenos e médios produtores rurais?
Não saberia explicar.
Mas uma coisa eu garanto: numa comunidade pequena, onde todos se conhecem, a honra, o renome, a boa fama, são valores preservados e sagrados. Valem mais que dinheiro.
Na cidade grande a falta de controle de um sobre o outro e a certeza da impunidade fazem gerar a corrupção de muitas pessoas e o abandono de valores éticos.

Comentários

UM POUCO DE FILOSOFIA

Recebo do meu amigo dr. Rogowski.

O Tempo, o ser e a Técnica
Régis de Oliveira Montenegro Barbosa*

São por todos nós conhecidos os benefícios, comodidades e facilidades gerados pelo avanço tecnológico da sociedade pós-industrial. Forçoso, contudo, indagar e refletir por que veredas trilhamos e a que custo. Assistimos, não sem assombro e consternação, ao depauperamento e à degradação das virtudes da alma, o que se constata com maior candência no campo da ética. Sucede como na estória do sapo que, colocado na panela imerso em água cujo calor é paulatinamente elevado, nela permanece até fenecer, já que deixa de perceber o gradativo aumento da temperatura. Assim também nos está a acontecer, seduzidos pela sociedade da técnica, fustigados pela azáfama cotidiana, sem que nos demos conta ou tenhamos força e energia para “remar contra a maré”.

Cooptados pelos “encantos da máquina”, permanecemos embevecidos, “grudados” nos visores do celular, do computador, do televisor, quiçá nutridos da dissimulada ânsia de sermos percebidos, aos nossos olhos e aos dos outros, como pertencentes a uma sociedade tecnologicamente avançada. Visualizar-se socialmente inserido no contexto, este é o mote! O problema é que, sem maiores perquirições, sofregamente lançamos mão de uma profusão de inovações tecnológicas (como a criança que se encanta com o brinquedo), ao escopo de sentirmo-nos “in” e não “out”. Desta forma, perdemos em sensibilidade para o que se encontra no entorno, vale dizer, para o belo e excitante mistério que a vida por si encerra, mas que vem perdendo em encanto e magia. Transitamos menos por uma consciência individualizada (acessada somente quando entramos em estreito contato com o recôndito de nosso ser) do que por aquela que se esgota no restrito grupo cultural a que pertencemos. Vale dizer, no inconsciente (ou consciente) coletivo Junguiano.

Por isso que, rogando perdão pela tautologia, todo mundo só faz e pensa o que todo mundo faz e pensa! Portadores desta consciência obnubilada, tornamo-nos presas inermes do torpor e da inconsciência, para não dizer inconsistência! Cultiva-se apenas o que é saliente e visto, não o que está oculto, velado e não aparente, postura que colide de frente com o aforismo cunhado por Antoine Saint-Exupéry, que, no opúsculo O Pequeno Príncipe, alertara: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.

A menos que se pretenda fazer vistas grossas e ouvidos moucos, é de inferir que a tecnologia, com a rapidez e artificialismo ínsitos, sem embargo de muitas vezes benfazeja, acarreta efeitos colaterais e embute todo um modus vivendi. Vem emprestando aridez a um mundo no qual cada vez menos vicejam a poesia, a sensibilidade, o encantamento, a contemplação, a paz, o amor. Pelo contrário, tais estados anímicos, não raro, são maliciosa e distorcidamente estigmatizados e acoimados de parvoíce ou pusilanimidade. Até parece que por força de nossa condição humana nem estamos expostos a toda sorte de infortúnios, à doença, à velhice e à morte.

Ao revés, no ápice da pirâmide axiológica grassam a competição, o arrivismo, a ânsia por sucesso pessoal e material, o açodamento impensado e insensato. Não assumimos nem damos a conhecer nossas fragilidades naturais e, o que é mais constrangedor, por vezes deixamos transparecer até mesmo o que bem lá no fundo nem somos ou nem estamos efetivamente sentindo (a velha hipocrisia da qual o meio e convívio social estão prenhes!).

Isto sem mencionar o crescente solapamento da “cultura do livro”, sucedida a passos largos pela indústria cultural e do entretenimento (ADORNO & HORKHEIMER, Dialética do Esclarecimento, e GUY DEBORD, A Sociedade do Espetáculo). Integramos uma “massa” amorfa e esteriotipada, cujas posturas, sentimentos, e até pensamentos, passam a ser pré-concebidos e moldados pela cultura de massa (HERBERT MARCUSE, o Homem Unidimensional) e por uma mentalidade de rebanho (NIETZSCHE).

De modo a provocar inveja ao mais genuíno “Fordismo”, que nos alvores do século passado inaugurou o sistema de produção em série e de divisão do trabalho.

Somos frutos de uma sociedade midiática que, modo intermitente, forja ídolos (ícones) que em seu proscênio são adorados e bajulados, mas que só conquistam e ostentam fama, prestígio e riqueza, na razão direta da existência de idólatras de plantão que, com tal atitude, deixam de despender atenção e energia para dentro de si, com o que desconectam os fios condutores que franqueiam o acesso à força e sabedoria interiores, em boicote ao despertar espiritual, que em determinadas culturas e filosofias do oriente assumem singular valia, mas que por nós são negligenciados.

Não é por menos que a sociedade tecnológica contabilizou como um de seus acerbos críticos o filósofo alemão Martin Heidegger (Ser e Tempo), para quem ela elidiu do homem a imprescindível indagação pelo sentido do Ser e pelo significado mais profundo da existência humana. Tudo porque vivenciamos uma “Sociedade em Rede” (MANUEL CASTELLS), que nos exorta a que permaneçamos a ela “plugados”, com o que se instala um mundo virtual e artificial (quase fictício!) a latere do mundo concreto e natural, aquele guindado a um posto de maior relevância, até mesmo nas relações afetivas.

Tais considerações e invectivas, todavia, não denotam qualquer pretensão a que se retorne ao estado de natureza ou que se renda tributo ao mito Rosseauniano do “Bom Selvagem”!

Outro efeito nefando protagonizado pela sociedade tecnológica reside na sensação de aceleração do tempo. É que tudo funciona de forma cada vez mais célere, regado por um bombardeio de informações, merçê da revolução da informática. Há quem diga que se cuida de fenômeno objetivo, tese preconizada pela “Doutrina Schuman”, em conformidade com a qual as ondas eletromagnéticas que envolvem nosso planeta estariam vibrando com uma frequência e velocidade maiores.

A triste evidência é que a vida nos está “levando de roldão”, o que automaticamente nos impõe a pergunta acerca de qual o sentido disso tudo. Perdemos em calma, afeto e alma! Como sentenciara Sócrates do cume de sua sabedoria (já que segundo o Oráculo de Delfos sabia que nada sabia), uma vida não examinada não vale a pena ser vivida. Com efeito, tornamo-nos meras peças de reposição de uma engrenagem que se auto alimenta e se move autonomamente, que nutre um fim em si mesmo e que conta como um de seus precípuos combustíveis propulsores o Capital, velho inimigo de Karl Marx.

Isto tudo não sem o sério risco de virmos a desembocar no autofagismo. O que até nos deixa timoratos de que se cumpra vaticínio escatológica da civilização Maia, que rendeu ensejo a recente produção cinematográfica, no sentido de que ocorrerão catástrofes de proporções alentadas por conta da inversão dos eixos polares da Terra, já no iminente ano de 2012, aptas a provocarem o epílogo da existência humana neste planeta, ao menos nas condições que conhecidas e vivenciadas.

No crepúsculo e sintetizando: para que nos seja possível provar da polpa da fruta estamos tendo que engolir o caroço!

*Juiz de Direito, Graduando em Filosofia no IDC.

Comentários

NOSTALGIAS II

Recebo do meu amigão, Nenito Sarturi, um dos artistas mais completos do Brasil, homem culto e sensível:

“O TEMPO PASSOU E ME FORMEI EM SOLIDÃO”

Por José Antônio Oliveira de Resende (Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei)

Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.

Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.

– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.

E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.

– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!

A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro… casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.

Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:

– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.

Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite… tudo sobre a mesa.

Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança… Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam…. era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade…

Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos… até que sumissem no horizonte da noite.

O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail… Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:

– Vamos marcar uma saída!… – ninguém quer entrar mais.

Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.

Casas trancadas.. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite….

Que saudade do compadre e da comadre!

AGORA VEJAM O COMENTÁRIO DO DESEMBARGADOR ELISEU TORRES

Texto bonito, enxuto, realista.Mas a verdade escondida atrás da solidão denunciada, amigo Ruy, é muito mais triste do que parece. Há uma tendência em atribuir à televisão o fenômeno que esvaziou as ruas, fechou os cinemas, aboliu o café da rua central. É juma parte da verdade, mas não é toda. É que, então, a vida corria mansa, os dias demoravam a fluir, as noites eram imensas. Havia tempo para tudo. As pessoas eram menos pressionadas.Basta comparar o consumo familiar de então, com o consumismo desenfreado de agora. Nós, meninos, tínhamos o uniforme do colégio (usava-se uniforme ou tapapó !), tínhamos uma camisa esporte e um terno ou fatiota,com a respectiva camisa social e gravata. Ia-se à matiné de terno ! Um par de sapatos, um borzeguim e estava pronto o guarda roupas. Compara com o vestuário de um adolescente de hoje. O mesmo se diga quanto aos pais e às irmãs. O relógio tem que ser de grife, camisetas mil, todas com royaltiesm pagos ás marcas internacionais. E por aí vamos. Ora, para atender a tais demandas, trabalha-se mais, corre-se mais, exige-se mais tempo e dedicação às atividades lucrativas. O resultado disso é, sim, a solidão retratada. O fim da jornada diária nos reserva uma cadeira cômoda, os jornais do dia e …a TV . E as ruas, amigo, tornaram-se perigosas até para uma simples visita. O valente xará Eliseu Santos, por sinal morto por outro Eliseu (ironia ou coincidência), saía de um culto religioso. Nada nos salva ! Um abraço do Eliseu Gomes Torres

Comentários

VITIMOLOGIA CAMPEIRA

Senta aí, amigo/a.

Mesmo que sejas um dos raros não formados em Direito, dada a pletora e inundação de cursos jurídicos por aí, até na Unistalda vão criar uma faculdade por correspondência, devo te explicar que não são de hoje as teorias que afirmam ser preponderante o papel da vítima na gênese do crime.

Qual é a mulher que não teve ganas de dar um pontaço de adaga num marido borracho. Esse marido é vítima, mas contribuiu para … chalalálálá, chega de teorismos, não aguento mais explicar.

Então vamos ao caso.

Quem me contou o causo foi o dr. Airton, dono da Barraca Missões, com sede em Bossoroca e filiais em toda a parte oeste do Rgs.
O estancieiro queria 3,50 pelo kg de lã. Só estavam pagando 3,00. Se aprochegou um vivente e lhe disse:
- le pago os 3,50 e chaca na buchaca.
- tá bueno. Carreguêmo amanhã.
O comprador foi lá numa 6a. feira, 15,59. Encostou o caminhão e começou a repesar os fardos de lã. O dono da lã já tinha pesado antes e anotado.
E o comprador, com sua balança , ia cantando os valores. Fardo 1 - 253 kgs. E o dono tinha pesado só 233. Fardo 2 - 353, e o dono tinha pesado só 333 kgs.
E assim ia a ciranda e o dono da lã bemn faceiro
- ala pucha, vou ganhar uns mil kgs nessa.
Terminaram a pesagem e o comprador começou a fazer o cheque.
- chê, mas péra aí, é a vista, é chaca na buchaca!
- mas é que nessa reculuta gastei todo o dinheiro vivo.
Mas fazêmo ansim. Descarreguêmo os fardos e eu volto 3a. ou 4a. ou sábado ou semana que vem. O senhor tem razão.
Mas tem uma coisa, vamo tê que pesar de novo tudo.
- mas puruquê, já tá pesado!.
- tá pesado mas para negócio hoje. Semana que vem tenho que pesar de novo. Assim como o sr. desconfia que eu não tenho fundos, eu posso desconfiar quer o sr. vai tirar lã dos fardos…
- Tá bem, possa levar o material, me dê o cheque.

Pois a vítima entupiu com o cheque, nunca teve fundos. Marchou.
Vitimologia campeira.

Comentários

NOSTALGIAS

Permitam-me, amigos, que hoje eu amenize um pouco e me una aos pássaros, em seus trinados matinais, ao lindo céu azul, à brisa amena, a esse nirvana climático.

É que, ultimamente, acometeu-me uma saudade imensa, mas imensa mesmo, de alguns amigos de raiz. Amigos de a gente sentar juntos, na varanda ou na sala e ficar , silentes, ouvindo a 7a. de Beethoven, por exemplo. Amigos de três dias de pescaria num lugar distante, com os papos varando a madrugada.

Assim como as épocas glaciais e os meteoros destruiram os mamutes e os pteridáctilos, o computador expulsou alguns amigos meus da advocacia e do convívio.
Sim, porque hoje é impossível advogar sem o computador.
Mas hoje é impossível conversar conversa sentada. Não há mais cartas nem telefonemas. É só mail ou MSN.
E dois queridos amigos meus estão hibernados, fora do planeta.
Um deles aposentou-se do Ministério Público Federal e vive no meio do mato, entre Jurerê e Canasvieiras. Não tem mais sapatos, nem gravatas. Só bermudas, camisetas e abrigos. Não vai a lugar nenhum. Passa churrasqueando solito com sua mulher, bebericando, lendo e ouvindo aquelas filarmônicas do Leste europeu. Não lê jornais, não liga a Tv.
Éramos e somos amicíssimos. Nos criamos juntos, nossos pais eram amigões, moramos em pensões, formamo-nos juntos em tudo e tivemos escritório em comum.
Quando nos encontramos , há um ano,ficamos sem assunto.
Eu só quero falar em terneiro, carneiro, Expointer, ativismo judicial, política, motor Euro 4, tênis.
Ele se indigna que eu não conheço aquela Sinfonia do Mahler, que tenho pressa demais, que dou bola pra carro, que tenho celular, que passo abrindo o notebook…

Nostalgias…

Comentários (1)

A NEFASTA “CORRENTE” DO GADO GORDO

Imagine o seguinte: você entra numa loja, olha um refrigerador, pergunta o preço, anota num papelucho, pega o número da conta do estabelecimento, anota, carrega o bem e diz:
- daqui a 30 dias deposito o valor.

Mas é isso que acontece, na maioria das vezes em que vendemos gado gordo.
Eles encostam o caminhão, pesam, pegam a nota do produtor e a Guia de Transporte animal e vão com teus bichinhos.
Tu não ficas com nenhum cheque nem nada.
E tem mais: tem frigorífico que pesa os animais na tua estância mas só paga ” a rendimento de carcaça”. Claro que eles te facultam ir lá ver o abate, hehehehe, 500kms de viagem para ver matarem 24 vacas….
Quando chega a data do pagamento é sempre a mesma novela:
- fulano está viajando, está em reunião, está….
Se localizas o comprador ele vem sempre com a mesma:
- mas qual é mesmo tua conta?
Ou então ele te entope de cheques de terceiros, a metade volta e aí tu tens que ir na agência etc…
Quer dizer: para um negócio de 25 mil reais não tem a mínima formalidade ou garantia.
Claro, nem todos são assim, mas muitos são.
E o pequeno e médio pecuarista tem VERGONHA ( já que é uma pessoa humilde e respeitosa) de ” se calçar” e exigir garantias.
É nessa hora que o Banrisul, por exemplo, poderia formatar um mecanismo assim: o vendedor vai até a agência, exibe a nota do produtor, a contra-nota do comprador e a GTA e saca o dinheiro, mediante um juro módico. Claro que o comprador teria de ser cadastrado na agência.
O que está acontecendo é que os frigoríficos, com esse teu gado comprado hoje, vão pagar aquele que compraram há 30 dias de outro, entendeu?
É só um romper a corrente e estamos todos f…..alidos.

Comentários (1)

« Publicações anteriores ·